Planos de saúde bucal ficarão mais caros em 2011
Por Medicando - Por Elizângela Isaque - 2-6-2010

Entidades afirmam que resolução da ANS para os planos de saúde odontológicos trarão perdas significativas para todo o setor
A resolução normativa da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que determina o acréscimo de 16 novas coberturas aos planos de saúde odontológica, a partir de junho deste ano, tem sido alvo de muitas críticas da comunidade de cirurgiões-dentistas do país. Empresas do segmento de cooperativas de profissionais e da odontologia de grupo afirmam que a medida adotada pelo órgão acarretará em perdas significativas para o setor, devido aos autos-custos a serem repassados ao consumidor final.
A resolução da ANS, órgão responsável por regulamentar o setor de saúde suplementar no Brasil, foi publicada em janeiro de 2010 e atualiza o "Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde", lista de procedimentos, médicos e odontológicos, oferecida pelas operadoras. O rol é a referência mínima obrigatória para cada segmentação de
planos de saúde ambulatorial e hospitalar, com ou sem obstetrícia, e plano referência, contratados pelos consumidores a partir de 02 de janeiro de 1999.
De acordo com a ANS, o conteúdo do rol deve atender à exigência da Lei nº 9.656/98, que visa "garantir que a assistência prestada pelos planos de saúde compreenda todas as ações necessárias à prevenção da doença e à recuperação, manutenção e reabilitação da saúde". Nessa linha, a nova regra vem a somar-se às outras iniciativas federais que visam aumentar o acesso da população aos tratamentos odontológicos.
Embora a nova norma também determine o acréscimo de 54 coberturas para a área médica, segundo os cirurgiões-dentistas, o setor odontológico sofrerá o maior impacto. A maior preocupação da classe diz respeito à inclusão de procedimentos que envolvem prótese dental, classificados como de alta complexidade. Para os profissionais, a obrigatoriedade de oferecer esse serviço altera uma ordem democrática já existente, na qual os planos que não oferecem esse tipo de cobertura sejam economicamente mais acessíveis à população. Pelas avaliações, os custos projetados para essa mudança são extremamente superiores às alterações de coberturas definidas anteriormente.
"A obrigatoriedade deste plano suprime o direito da população de ser atendida e do cirurgião-dentista de atender a um plano que não lhe dê este tipo de cobertura. Verifica-se, portanto, uma situação distinta entre criar a possibilidade de um indivíduo ter aquele aces
so e a outra, que é obrigá-lo a pagar por aquele cujos procedimentos ele poderá não utilizar", argumenta o presidente Sindicato Nacional das Empresas de Odontologia de Grupo (Sinog), Dr. Carlos Roberto Squillaci.
Para Squillaci, embora a medida seja uma tentativa de corrigir as atuais disparidades no acesso da população ao atendimento odontológico, na prática, o cumprimento do novo rol implicará em aumento nas mensalidades dos planos mais básicos, o que afetará diretamente às classes C e D da população. "Quando se tem um plano cujo custo elevado venha a representar um gasto extraordinário para as pessoas, há uma desaceleração do ritmo de novas contratações e, inclusive, de cancelamento de contratos já existentes, devido à introdução destes novos procedimentos que forçarão a um reajuste no valor das mensalidades", afirma.
Em suas análises, Squillaci diz que os profissionais também serão prejudicados com as novas regras por perderem a opção de oferecer aos pacientes procedimentos complementares não previstos no rol mínimo dos respectivos planos. "Essas mudanças não são positivas para nenhum dos envolvidos na assistência odontológica. Com isso perdem todos: operadoras, cirurgiões-dentistas, população e, inclusive, o governo, que registrará índices maiores de cáries, câncer bucal e outras doenças do corpo, originadas pela boca", sinaliza.
Essa é a mesma preocupação da Associação Brasileira de Odontologia (ABO), cujo presidente Newton Miranda de Carvalho destaca como outro aspecto negativo da nova res
olução, os valores inadequados aos serviços prestados que os cirurgiões-dentista tenderão a receber dos planos. "Seus vencimentos continuarão defasados, embora eles tenham de realizar procedimentos muito frequentes a um alto custo, a exemplo da colocação de próteses. Com isso, o profissional trabalhará desmotivado, podendo se recusar a realizar determinados procedimentos, ou até abandonar o plano", argumenta.
Custos
Para um dos diretores do Sinog, que representa o sindicato no Grupo Técnico da ANS, Dr. Geraldo Almeida Lima, após o dia 7 de junho haverá dois cenários distintos, em relação aos planos já existentes e aos que serão comercializados sob a nova norma. "A ANS não indicou qual será a fonte de custeio para o incremento do rol, portanto, a conta ficará com as operadoras. Esses custos incidirão sobre os preços finais dos planos comercializados após a vigência da normativa e sobre os preços dos planos coletivos já existentes, onde haverá negociação de reajustes de valores para tentar o reequilíbrio financeiro da carteira", explica.
Embora as estimativas financeiras apontem para perdas significativas, o presidente do Sinog afirma ainda não conhecer o valor exato dos reajustes a serem repassados aos consumidores. "Estamos elaborando estudos do impacto que os novos procedimentos terão, tanto sobre as carteiras novas, para fixarmos um valor condizente com a nova realidade, quanto sobre os planos já comercializados, para demonstrar à Agência reguladora que os reajustes serão necessários para recompor o equilíbrio financeiro da carteira", justifica Squillaci.
Cooperativas
Também sem uma estimativa precisa acerca do aumento a ser repassado para os consumidores finais, os profissionais cooperados estimam que o prejuízo seja muito acima do calculado pela ANS, estimado em cerca de 5%. De acordo com José Alves, os
primeiros estudos apontam para um aumento dos custos na ordem de 15%, embora encontrem dificuldade de se fazer cálculos, uma vez que não dispõem de informações concretas da demanda existente para as novas coberturas.
"Estamos muito preocupados com os impactos financeiros causados pela nova cobertura, uma vez que não podemos discutir qualquer reajuste antes da data base dos contratos", desabafa o presidente da Uniodonto, José Alves de Sousa Neto que, ao mesmo tempo, não descarta a possibilidade de oscilação nos custos a serem repassados. "Para os nossos cooperados e, principalmente, para a rede prestadora das outras operadoras, ao longo do tempo pode haver a diminuição dos valores pagos para os referidos procedimentos", pondera.
Hoje, as cooperativas e as empresas de grupo são as modalidades que mais captam novos adeptos para planos odontológicos no Brasil. A flexibilidade de se criar adesão a planos diferenciados, elaborados de acordo com necessidades individuais, está entre os principais fatores que explicam a paulatina expansão desses segmentos. Por meio desses, os preços dos serviços escolhidos tornam-se uma alternativa atraente, já que cada cliente paga apenas por procedimentos dos quais já necessitam.
A Uniodonto está entre as entidades que participaram da Câmara Técnica da Agência Nacional de Saúde Suplementar, que avaliou as propostas apresentadas pelos represe
ntantes do setor e definiu os novos atos constantes da nova cobertura. "Desde o início das discussões nos colocamos contrários a todas as alterações, por entendermos que novas inclusões de procedimentos causariam aumento dos valores dos planos, dificultando o acesso de pessoas de baixo poder aquisitivo. Ou seja, ao longo do tempo corremos o risco de 'elitizar' nossos planos", diz.
Neto também destaca que outro ponto importante, levado em consideração pela Uniodonto, refere-se ao fato de que, quando há interesse em uma cobertura diferenciada, as empresas discutem diretamente com as operadoras, que criam planos específicos para estes casos. "Na prática, quando há a necessidade de uma cobertura maior do que o rol, as operadoras já os oferecem, sem que isso cause um aumento dos valores de todo o mercado", defende.
Uma das maiores cooperativas odontológicas do país, a Uniodonto é composta por 130 cooperativas, 9 federações, e mais de 22.000 cooperados, em aproximadamente 1.500 municípios brasileiros. "Nossas cooperativas não trabalham com a possibilidade de haver algum impacto sobre os ganhos de nossos cooperados, no entanto, deveremos aguardar um pouco mais para avaliarmos os impactos reais nos custos assistenciais de nossas operadoras", finaliza José Alves Neto.